O poder do usufruto da democracia é tão interessante quanto o usufruto em si daquilo que se escolhe

 Parkour na Virada Cultural

Nesse último 27 de abril, vários traceurs de várias cidades. Cenário? Teatro Municipal, região central de São Paulo. Emocionante! Vários deles presentes na Virada Cultural! Uns, vi pela primeira vez, outros, revi.

Muitos não se contendo de alegria, satisfação; brilho nos olhos... Percebi que tinham pessoas com a mesma hesitação que eu, felizes e se sentindo seguros por estarem com pessoas que compartilham de sonhos, determinações e afinidades.

Tinha tanta gente no Vale do Anhangabaú (próximo ao Teatro Municipal, onde acontecem eventos na região central de SP) que mesmo se os traceurs estivessem lá no meio, seria fácil encontrá-los, eles têm características próprias.

Entendo o Parkour como sendo algo além daquilo que percebemos através dos olhos. Uma vez que pessoas vindo de suas casas, muitas vezes fora do estado; alguns, ainda, enfrentando discussões em suas casas pra poderem sair e participar dos eventos; outros, enfrentando a si próprios: “vou me encontrar com traceurs ‘melhores que eu’, não posso fazer feio” – e sabemos que isso é bobagem -; questões financeiras... Realmente é fácil notar que as pessoas quando se juntam, algo, além de movimentos incríveis, os envolvem, inclusive, os espectadores. O que se prova a cada dia é que, diferente de algumas (se não todas) atividades esportivas, alguns do parkour estão preocupados com a própria evolução; ovacionam a evolução do outro; recebem bem em suas cidades e hospedam em suas casas outros praticantes (ainda que vivemos numa realidade social delicada); sequer se preocupam com etnia; origem; idade; condições financeiras, sexuais, físicas, intelectuais... (ou, se preocupavam, alguns reviram seus conceitos, ou, não os tomaram como prioridades). Destaco uma curiosidade observada há meses. Numa academia de ginástica, por exemplo, com todos os seus aparatos, tecnologia e há anos no mercado ajudando as pessoas a terem qualidade de vida, alguns de forma mais responsável, outros, nem tanto, testemunhamos algumas pessoas correndo em esteiras, pagando por isso e exercitando num ambiente de “seis” paredes, onde, muitas vezes, pessoas trabalham seus corpos uns a poucos centímetros do outro, mas sequer se falam, optando como companhia um mp3. Ótimo! As opções estão aí para serem escolhidas. Porém, no parkour, o treino é feito, na sua maioria, ao ar livre, em praças, há contato físico, olham-se nos olhos e é gratuito. Destaquei tais situações contrapostas, entretanto, sabe-se que tudo tem seus prós e contras, daí cada um prioriza o que for mais conveniente pra si. Portanto, o poder do usufruto da democracia é tão interessante quanto o usufruto em si daquilo que se escolhe. Que mais? Ah! Sotaques: mineiro, brasiliense, carioca, curitibano, alagoano, sergipano; interiorano etc... Essa mistura cultural inevitável é outra característica nobre que faz com que ganhemos toda vez que nos encontramos com traceurs do Brasil inteiro! Vemos também uma relação real, pós uma relação virtual, o que torna e contribui de alguma forma para uma espécie de Shut Down Day*, ou, “O Dia Off-line”, assim, promovendo um pouco com a saída das pessoas da frente do pc, as pessoas se conhecendo de verdade e com segurança, trocando contatos e, posteriormente, marcando reuniões ou coisas do tipo. Outro detalhe... De madrugada, sob chuvas e baixas temperaturas é de costume curtirmos um programinha mais doméstico, no entanto, vemos posts de traceurs que não se deixam abater nem com os efeitos da natureza, coisas do tipo: “faça chuva ou faça sol, vou treinar”, ou seja, vencendo o sedentarismo. Vencem obstáculos antes mesmos desses virem. Conhecemos gente nova a cada domingo (ou, a cada treino), portanto, quão maior a quantidade de pessoas, maior a segurança, ainda que muitos entendam isso como prejudicial para um bom desempenho nos treinos... Vale salientar que alguns com um pouco mais de experiência, boa vontade e paciência, desenvolvem a didática, o senso de liderança e a responsabilidade com o próximo, uma vez que se propõem a ajudar iniciantes. Falamos de assuntos diversos pós-treino. Muitos trabalham e/ou estudam. É uma febre que contagia milhares de pessoas há anos pelo Brasil e fora dele. Para muitos, o parkour já faz parte da cultura de suas regiões, um atrativo a mais pra sua comunidade e envolve, direta e indiretamente, profissionais de várias áreas, pois, ele desperta a atenção de cada vez mais pessoas que querem conhecer sua origem e sua proposta. A cada dia, mais e mais pessoas entrando nas comunidades na Internet tirando dúvidas; alguns pais se interessando por essa atividade e querendo saber como ela funciona, participando mais na vida de seus filhos, e, conseqüentemente, sabendo onde andam e quais suas companhias. Alguns traceurs mais experientes trabalham em comerciais de tv, em eventos, palestra..., inclusive, em causas sociais, arrecadando alimentos para instituições carentes, o que dignifica ainda mais essa arte chamada Le Parkour. Depois de ter essa visão além de seus movimentos incríveis, e os acompanho há algum tempo, destaquei alguns itens nesse processo: auto-estima (vencer a si próprio); família (participação); social (envolver pessoas); profissional (oportunidade de trabalhos); intelectual (adquirir conhecimento através da leitura); físico (desenvolvimento; saúde); segurança (união das pessoas); solidariedade (ajudando o próximo); educativo (apoio aos iniciantes); entretenimento (hobby). Estou satisfeito em saber que essa nova safra está bem encaminhada, considerando que tem muita gente jovem se perdendo na vida. Há uma meia dúzia que discorde do parkour e, ainda, os marginalizem e são precipitados ao apontarem apenas falhas. Inclusive, muitos deles já passaram por situações agressivas; absurdas, injustas, mesmo não prejudicando ninguém, mas, como a idéia central é ultrapassar obstáculos, esses são mais um. Valeu, Biskoitus!

* leia entrevista nesse link, é seguro http://64.233.169.104/search?q=cache:8gPpbvFDJkQJ:tecnologia.terra.com.br/interna/0,,OI2759944-EI4802,00-Internautas%2Bcriam%2Bdia%2Boffline.html+Dia+off-line&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br ), ou, digitem no Google “Dia Mundial Off-line, 3 de Maio”.

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